Três dias de viagem, escalas para abastecer e voo sem GPS: piloto viaja quase 4 mil km para levar monomotor dos EUA ao Brasil

  • 29/03/2026
(Foto: Reprodução)
Piloto gasta cerca de R$ 11,5 mil em combustível para trazer avião dos EUA a Boa Vista Imagine voar quase 4 mil quilômetros sem GPS ou piloto automático, em um monomotor com mais de 30 anos de fabricação e autonomia insuficiente para ir direto da origem ao destino. Esse foi o desafio do piloto brasileiro Mário Jorge Filho, de 33 anos, que decolou da Flórida e pousou em Boa Vista (RR) no começo deste mês. O vídeo em que ele divide a experiência - e mostra os custos da viagem - para os seguidores na internet tem mais de 5 milhões de visualizações e mais de 300 mil curtidas. O trajeto que ele percorreu inclui quatro escalas em ilhas do Caribe e levou três dias. Só de gasto com combustível foi R$ 11,5 mil. (veja o infográfico abaixo) ✈️O avião é um monomotor Bonanza F33A, comprado por Mário Jorge e batizado de Brasileirinho. A viagem foi no estilo 'old-school '— ou seja, sem instrumentos modernos — "só no olho", guiado por ferramentas básicas no painel e pela experiência do piloto. A autonomia do modelo é de cerca de 1.300 km. Especialistas em aeronáutica ouvidos pelo g1 analisaram a viagem de Mário e afirmaram que, nesses casos, um dos quesitos mais importantes do planejamento é a segurança. Eles destacaram ainda que o Bonanza F33A, embora seja uma aeronave de pequeno porte, é considerado um avião seguro. (leia mais abaixo) O trajeto, que se iniciou na Flórida no dia 27 de fevereiro e terminou na capital de Roraima no dia 1º de março, somou cerca de 13 horas no ar, divididas em três dias de aventura. Além do piloto, Fernando de Borthole, um amigo influenciador o acompanhou na viagem. “Comprei o avião nos Estados Unidos e precisava trazer para o Brasil. Isso faz parte da minha profissão. Eu trabalho com isso desde 2015, buscando aviões no mundo inteiro e trazendo para o Brasil”, explicou. Além dos 704 litros de combustível, a viagem também incluiu outros custos elevados, como taxas aeroportuárias e diária de hotel pelos lugares onde ele passou. Infográfico mostra trajeto de piloto da Flórida a Boa Vista Arte/g1 ☑️📄Regularização de aeronaves: segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), para que um avião comprado no exterior fique totalmente regular no Brasil, o novo dono precisa cumprir etapas como cancelar o registro no país de origem, solicitar a matrícula brasileira e obter os certificados exigidos, que comprovam a propriedade e as condições de aeronavegabilidade. O avião comprado por Mário está no processo de vistoria inicial, uma das etapas para a concessão do certificado de matrícula. 🌊 Rota com paradas pelo Caribe 'Brasileirinho' passando por ilhas no Caribe até Boa Vista Arquivo Pessoal Para chegar ao Brasil, o piloto fez uma rota com várias paradas estratégicas, em ilhas do Caribe. O percurso incluiu: Flórida (EUA) Bahamas Porto Rico Sint Maarten Granada Boa Vista (RR) A distância total percorrida foi de cerca de 3.800 km — maior que a rota direta, estimada em 3.300 km. Segundo ele, a escolha não foi aleatória. Há um critério que equilibra segurança e praticidade. “Escolho lugares onde já passei várias vezes, onde me conhecem, onde sei que tem estrutura. Minha base é segurança e eficiência. Não dá para ser só eficiente e perder segurança, nem ser só seguro e perder eficiência. Então, vou nesses lugares que conheço bem”, disse. O professor e pesquisador do curso de Engenharia Aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP), James Waterhouse, explica que, embora curioso, esse tipo de trajeto é comum para aeronaves menores justamente pela segurança e pontos de apoio no trajeto. "Em vez de seguir em linha reta, o piloto vai passando pelas ilhas, como se fosse uma ferradura. Isso aumenta a distância, mas oferece mais segurança, porque há pontos de apoio ao longo do caminho”. “Se o piloto optar por uma rota direta, pode enfrentar quase mil quilômetros sem apoio. Em caso de falha, não há onde pousar”, disse. ⚠️ Desafios de voar com monomotor O avião usado na viagem foi um Bonanza F33A, modelo clássico da aviação americana que surgiu antes da Segunda Guerra Mundial. A aeronave funciona com motor a pistão, que transforma a energia da combustão em movimento, e hélice. Segundo o professor James Waterhouse, trata-se de um avião de tecnologia tradicional, confiável e econômico mas que exige atenção, especialmente em voos longos sobre o mar. “É um avião monomotor, com motor a pistão que usa gasolina aeronáutica. Apesar de ser um modelo tradicional, é considerado um excelente avião”, explicou. “O principal [risco] é o motor. Existe um ditado: quem tem dois motores tem um; quem tem um, não tem nenhum. Se o motor parar, você vai para a água”, afirmou. Por isso, a escolha da rota com paradas, como a feita por Mario, é fundamental. James Waterhouse inclusive fez essa mesma rota - EUA a Boa Vista - em um monomotor ao menos 10 vezes. “Sempre que faço esse trajeto com monomotor, paro nas ilhas. Além da segurança, há estrutura de apoio, como hotéis e serviços”, disse. Outro desafio é o clima, especialmente na região Norte do Brasil. "Antes de chegar a Boa Vista há uma área com muitas tempestades frequentes. Por isso, é importante passar por esse trecho pela manhã", explicou o professor. Doutor em Engenharia Mecânica com ênfase em Aeronaves, o também professor da USP Jorge Henrique Bidinotto, também reforçou que, nestes casos de viagens sem uso de tecnologia como apoio, uma medida de segurança segura é voar durante o dia. “Se a aeronave não for equipada para voo por instrumentos, o piloto precisa voar sob regras visuais. Isso significa que ele só pode operar com boa visibilidade, durante o dia, evitando nuvens e condições meteorológicas adversas”, disse. Bidinotto frisou ainda que viagens de longas distâncias exigem preparação adequada, com planos de paradas pré-definidos e atenção ao consumo de combustível. "Um trajeto como esse exige muito planejamento. É preciso calcular bem o consumo, definir onde vai pousar, o tempo de cada etapa e garantir que haja estrutura de apoio. Pelo que foi apresentado, ele foi bastante organizado e seguiu as normas da aviação", destacou. 🛩️ Viagem faz parte da rotina de trabalho Mario Jorge Filho é aviador e traz aviões para o Brasil Arquivo Pessoal O avião foi adquirido por Mário com a ideia e realizar um sonho: viajar em breve pelo mundo a bordo do monomotor. Ele preferiu não dar detalhes sobre o valor da transação. Já trazer o aparelho ao Brasil não foi novidade para o piloto. Esse tipo de operação faz parte da rotina profissional dele há anos, que trabalha trazendo aeronaves do exterior ao Brasil. Essas viagens também viram conteúdo para redes sociais — algo que, segundo ele, faz parte da sua atuação. “É bem cotidiano eu fazer esses vídeos de quanto custa abastecer, quanto custou o trajeto, quanto custou a aeronave. Isso é meio cotidiano”, disse. Para Mário Jorge Filho, Boa Vista é um ponto recorrente nas rotas do piloto. A escolha vai além da localização geográfica. Ele destaca que, na capital de Roraima há agilidade nos processos aeroportuários — desde Receita Federal até outros trâmites mais burocráticos. “Desde 2015 eu já passava por Boa Vista. Eu gosto demais da cidade, das pessoas, da estrutura. Não troco essa minha entrada por outra cidade”, afirmou. O professor Waterhouse confirma que a capital roraimense é uma das principais portas de entrada para esse tipo de operação no país. Isso dá pois os pilotos preferem voar por locais com pouca floresta fechada. “Quando venho pelos Estados Unidos e passo pela Venezuela, muitas vezes entro por Boa Vista, porque assim atravesso menos área de floresta. Na região de Boa Vista há mais áreas de fazenda, agricultura e pecuária, e o mesmo ocorre em parte da Venezuela”, explicou. O Brasileirinho ainda tem novos planos. Segundo Mário Jorge, o avião passará por adaptações para um projeto ainda mais ambicioso. A ideia é dar a volta ao mundo com a aeronave ainda este ano. “Quero mostrar a cultura do mundo para o Brasil e o Brasil para o mundo. A aviação permite isso, essa troca de experiências”, disse.

FONTE: https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2026/03/29/tres-dias-de-viagem-escalas-para-abastecer-e-voo-sem-gps-piloto-viaja-quase-4-mil-km-para-levar-monomotor-dos-eua-ao-brasil.ghtml


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