Por que as aeronaves deixam faixas brancas no céu? Entenda efeito no clima
07/05/2026
(Foto: Reprodução) Aeronaves frequentemente deixam rastros de gelo no céu.
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As contrails, abreviação de condensation trails (“rastros de condensação”), são as faixas brancas frequentemente vistas no céu atrás das aeronaves. O atlas internacional de nuvens, que classifica as nuvens, tem uma categoria só para elas: cirrus homogenitus, um exemplo de nuvens produzidas pelo ser humano.
As contrails contribuem para as mudanças climáticas, somando-se ao aquecimento causado pelo dióxido de carbono emitido pela aviação. Embora a quantidade exata de aquecimento provocada por essas nuvens de aparência delicada seja incerta, o que se sabe atualmente sugere que reduzir o número de contrails tem potencial para diminuir o impacto climático dos voos.
As contrails são feitas de cristais de gelo. Eles refletem a luz solar, fazendo com que a superfície da Terra receba menos energia, mas ao mesmo tempo retêm parte da radiação infravermelha emitida pela Terra.
Dependendo do equilíbrio entre esses dois efeitos opostos — uma perda líquida de energia ou um ganho líquido de energia —, contrails individuais podem tanto aquecer quanto resfriar ao longo de sua existência, mas o efeito de aquecimento predomina quando se considera a população global anual de contrails.
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Como elas são formadas?
As contrails se formam atrás das aeronaves a uma altitude de cerca de 10 a 11 km. Elas só se formam em regiões suficientemente frias e úmidas da atmosfera, onde o vapor d’água se condensa nas partículas de fuligem emitidas pelos motores das aeronaves para formar gotículas líquidas, que congelam e viram cristais de gelo.
✈️As regiões com mais contrails ficam sobre a Europa, o Atlântico Norte e o leste da América do Norte. Elas são mais raras na Ásia.
Partículas de fuligem são necessárias para formar contrails, mas até motores que emitem pouquíssima fuligem ainda geram contrails. Outras partículas, frequentemente formadas na pluma do motor, assumem esse papel e levam à formação das contrails.
Mas algumas combinações de combustível e tecnologia de motores podem, no futuro, oferecer uma forma de produzir menos contrails — ou ao menos contrails com menor impacto climático.
As características de uma contrail dependem inicialmente do tamanho, da forma e da posição dos motores da aeronave que a criou, mas as condições atmosféricas são, em última instância, mais importantes.
Em uma atmosfera seca, as contrails duram apenas alguns minutos e cobrem uma área muito pequena: seu impacto climático é insignificante. Mas, se a atmosfera permanecer fria e úmida o suficiente, muitas contrails se formam, crescem e se unem para formar campos de nuvens de gelo, chamados de contrail cirrus.
As nuvens de contrail cirrus afetam o clima porque duram várias horas e podem cobrir grandes áreas, às vezes se estendendo por países inteiros, como já foi observado sobre o Reino Unido e a França, por exemplo.
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Algumas nuvens de contrail cirrus podem exercer o mesmo impacto climático que dezenas, até centenas, de toneladas de dióxido de carbono.
Dois efeitos tornam as contrails particularmente potentes. Embora inicialmente se formem a partir das poucas centenas de quilos de vapor d’água e das dezenas de gramas de fuligem liberadas a cada minuto de voo, as contrails depois ganham massa a partir da umidade da atmosfera.
Além disso, os cristais de gelo absorvem radiação infravermelha em praticamente todos os comprimentos de onda, enquanto o dióxido de carbono absorve apenas em faixas estreitas de comprimento de onda.
No entanto, as contrail cirrus afetam fortemente o fluxo de energia que entra e sai da Terra por algumas horas. Isso contrasta com as mudanças comparativamente mais fracas causadas pelo dióxido de carbono, que duram séculos.
Assim, o aquecimento provocado por um voo será inicialmente dominado pelas contrails, mas o dióxido de carbono passará a predominar alguns anos após o voo.
Redirecionar aeronaves para evitar voar em regiões onde as contrails se formam pode desacelerar o aquecimento climático causado por um setor de aviação em crescimento. Mas ainda há muitas coisas que os cientistas precisam compreender sobre como prever quais voos teriam seu impacto climático mais reduzido com esse tipo de planejamento.
As previsões meteorológicas de umidade em altitude de voo precisam melhorar, e uma maneira de fazer isso é ter medições mais precisas e frequentes da umidade.
Esse é o objetivo do projeto de pesquisa Mist, no qual trabalho com a Honeywell Aerospace UK e a Boeing UK para desenvolver um sensor de umidade capaz de detectar a formação de contrails, verificar como o sensor pode ser integrado em aeronaves comerciais e avaliar como medições melhores de umidade afetam a previsão do impacto climático das contrails.
Muitos projetos de pesquisa buscam quantificar melhor o impacto climático das contrails e encontrar maneiras de produzir menos contrails que provoquem aquecimento.
Mudar combustíveis ou a tecnologia dos motores é um processo lento. Mas otimizar trajetórias de voo com previsões meteorológicas para evitar as regiões frias e úmidas da atmosfera onde as contrails se formam pode ser algo alcançável mais rapidamente.
*Nicolas Bellouin é professor de Processos Climáticos na University of Reading.
**Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation.