O que se sabe sobre avião soviético há mais de 20 anos abandonado no interior de São Paulo
25/04/2026
(Foto: Reprodução) O que se sabe sobre aeronave soviética abandonada no interior de São Paulo
Uma aeronave soviética abandonada há mais de duas décadas no Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto (SP), está no centro de um impasse judicial que envolve o governo federal e um clube náutico de Belo Horizonte (MG).
Um dia usado para levar associados do Clube Náutico Água Limpa, o avião modelo Yakovlev Yak-40 foi apreendido em 2002 por supostas irregularidades e, desde então, nunca mais foi removido. Com o tempo e a exposição a céu aberto, ele se desgastou, perdeu valor de mercado e virou sucata.
Por trás da possibilidade de uma remoção do que sobrou do avião, estão processos e decisões que foram tomadas ao longo dos anos e que inclusive motivam diferentes entendimentos sobre quem deve ir buscar a aeronave.
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Por um lado, está a USP de São Carlos, que em 2007 foi a destinatária de uma doação da aeronave por parte da Receita Federal e que tinha a expectativa de usar o material para fins didáticos. Por outro, os representantes do clube náutico alegam que, com uma decisão judicial de 2013, que anulou a apreensão, têm direitos legítimos sobre a aeronave.
Tanto para USP quanto para o clube, o principal problema que inviabiliza a remoção são os custos, estimados acima dos R$ 200 mil.
A seguir, veja o que se sabe sobre o abandono da aeronave soviética no interior de São Paulo.
Avião fabricado na União Soviética nos anos 1960 está abandonado no Aeroporto de Ribeirão Preto (SP).
Cacá Trovó/EPTV
O que se sabe sobre o modelo da aeronave
O avião abandonado é um jato modelo Yakovlev Yak-40, fabricado na extinta União Soviética durante os anos 1960. De acordo com especialistas, ele é um exemplar único no território brasileiro.
A aeronave foi projetada com foco na aviação regional para o transporte de passageiros, realizando seu primeiro voo oficial em outubro de 1966. Suas características principais incluem:
capacidade para 40 passageiros.
três motores a jato.
autonomia de voo de três horas, com alcance de 1,8 mil quilômetros.
20 metros de comprimento, 25 metros de envergadura e seis metros de altura.
Como a aeronave foi parar no Brasil?
Em 2001, a aeronave foi adquirida pelo Clube Náutico Água Limpa, uma entidade de Belo Horizonte (MG). Quando foi comprado, o jato tinha uma matrícula referente a São Tomé e Príncipe.
A finalidade da compra foi incrementar as atividades de lazer oferecidas aos sócios do clube, funcionando em um sistema de compartilhamento de uso. Embora o valor exato da transação na época não tenha sido detalhado, o clube estimou o valor do patrimônio em cerca de R$ 1,5 milhão nas ações judiciais que ajuizou posteriormente.
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Como a aeronave foi utilizada no Brasil e por quanto tempo?
O jato operou no Brasil entre 2001 e 2002. Durante esse período, foi utilizado para transportar associados do Clube Náutico Água Limpa em viagens curtas, principalmente para regiões litorâneas do Sudeste. Entre os destinos frequentes realizados pela aeronave com os sócios estavam:
Búzios (RJ)
Cabo Frio (RJ)
Foz do Iguaçu (PR)
INFOGRÁFICO - Jato Yakovlev Yak-40
Arte/g1
Quando e como essa aeronave foi apreendida?
A apreensão ocorreu em 2002, após o avião realizar um pouso não programado no Aeroporto Leite Lopes, em Ribeirão Preto. Na ocasião, a aeronave estava em uma de suas viagens de transporte de associados quando agentes do antigo Departamento de Aviação Civil (DAC) identificaram supostas irregularidades.
Após a fiscalização, a Receita Federal determinou a apreensão do bem. Desde aquele pouso forçado por questões técnicas e burocráticas, a aeronave nunca mais deixou a cidade ou voltou a voar.
O que os fiscais alegaram ao apreenderem a aeronave?
Os fiscais do antigo DAC e da Receita Federal alegaram que a aeronave descumpria as normas para o exercício de transporte em território nacional. O principal argumento era de que a autorização de permanência temporária no país havia expirado. Além da questão documental, as autoridades afirmaram que:
a aeronave estaria sendo utilizada para fins comerciais não autorizados.
não havia registro de nacionalização regular do bem junto aos órgãos brasileiros.
o proprietário teria descumprido determinações administrativas para retirar o avião do país.
Avião fabricado na União Soviética nos anos 1960 está abandonado no Aeroporto de Ribeirão Preto (SP).
Cacá Trovó/EPTV
O que a Receita Federal fez com a aeronave após a apreensão?
Após a apreensão, a União aplicou a pena de perdimento da aeronave, assumindo a guarda do bem. Em 2007, a Receita Federal determinou a destinação do jato para a Escola de Engenharia de São Carlos, da USP.
Durante todo esse processo, a aeronave foi mantida estacionada em uma área descoberta do aeroporto de Ribeirão Preto. Sem medidas de conservação ou proteção contra intempéries, o avião sofreu degradação, perdendo navegabilidade e valor comercial ao longo de décadas.
O que os donos da aeronave fizeram para tentar recuperar a aeronave?
O Clube Náutico Água Limpa contestou a apreensão judicialmente, alegando que o processo administrativo foi irregular e que a aeronave estava devidamente nacionalizada. Em 2013, o clube obteve uma vitória na Justiça, que considerou a apreensão ilegal e anulou a pena de perdimento aplicada pela União.
Posteriormente, em 2018, os proprietários ajuizaram uma nova ação pedindo uma indenização de R$ 1,5 milhão por danos materiais e mais R$ 280 mil para custear a desmontagem e remoção do que restou do avião.
O clube argumenta que só não retirou a aeronave ainda porque ela se tornou uma sucata inoperável sob custódia do estado e aguarda pelo custeio por parte da União para fazer isso.
Avião da antiga URSS está há 21 anos abandonado no aeroporto de Ribeirão Preto
O que a USP de São Carlos afirma sobre a doação da aeronave?
Para a USP, o avião foi destinado à Escola de Engenharia de São Carlos em 2007 para fins puramente educacionais. O objetivo seria utilizar a estrutura como um "laboratório vivo" para aulas práticas sobre turbinas e sistemas hidráulicos.
No entanto, a universidade nunca providenciou a retirada do jato por falta de recursos financeiros. Segundo o professor James Rojas Waterhouse, a transferência exigiria a desmontagem do avião, uma operação orçada entre R$ 200 mil e R$ 300 mil.
O que a Advocacia-Geral da União diz sobre o pedido de indenização por parte dos donos?
A Advocacia-Geral da União (AGU) informou que apresentou defesa no processo judicial movido pelo Clube Náutico. O órgão sustenta a inexistência do direito à indenização pleiteada e defende a improcedência total dos pedidos feitos pelos proprietários originais.
De acordo com a AGU, o processo aguarda que o clube apresente documentos pendentes para possibilitar a continuidade da ação. A União mantém o entendimento de que os procedimentos adotados à época da apreensão foram legítimos e que não há dever de ressarcimento.
O que a Receita Federal diz sobre a apreensão da aeronave?
Embora procurada para comentar o caso, a Receita Federal não se manifestou. No processo, o órgão defendeu que a apreensão foi baseada no descumprimento de prazos e no uso comercial irregular de uma aeronave registrada como estrangeira.
A Receita também apontou que houve recusa dos proprietários em entregar documentos e chaves após a decretação do perdimento. Para o fisco, a situação de irregularidade da aeronave no território nacional era incontroversa no momento da fiscalização em 2002.
Inscrições em alfabeto cirílico de aeronave fabricada na extinta União Soviética, abandonada em Ribeirão Preto (SP).
Cacá Trovó/EPTV
Quem deve ir buscar a aeronave e por que ainda não foi?
Existe um conflito de entendimentos sobre quem deve retirar a aeronave: a USP, como donatária oficial, ou o Clube Náutico, como dono reconhecido por decisão judicial posterior. No entanto, o alto custo logístico e o estado de sucata do jato impedem qualquer ação imediata. Os motivos para o avião permanecer no local incluem:
a necessidade de desmontagem complexa para transporte terrestre, já que o jato não tem mais condições de voo.
o valor estimado da operação (até R$ 300 mil).
a degradação física das peças, que tornam a recuperação economicamente inviável.
o impasse jurídico sobre a indenização, com o clube aguardando que a União pague pelos danos e pela remoção.
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