Ebola, hantavírus, Influenza A e mais: quais os vírus mais perigosos hoje e como eles podem afetar sua rotina?

  • 24/05/2026
(Foto: Reprodução)
Entenda o Ebola em 7 pontos Uma das confusões mais comuns quando o assunto é vírus perigosos é equiparar letalidade a perigo. Do ponto de vista da saúde pública, as duas medidas caminham juntas, mas não significam a mesma coisa. O vírus que mata mais, em proporção, não é necessariamente o que representa maior ameaça para a população —pode ser aquele que se dissemina com mais facilidade, que atinge grupos vulneráveis sem aviso prévio, ou que sobrecarrega o sistema de saúde e compromete o atendimento de outras doenças. Em 2026, cinco vírus concentram a atenção de pesquisadores e autoridades sanitárias no Brasil e no mundo: ebola, hantavírus, influenza A, poliomielite e mpox. Cada um tem características epidemiológicas distintas —mecanismo de transmissão, taxa de letalidade, existência de vacina e presença no território nacional. O g1 ouviu três infectologistas para entender o que cada um representa, de fato, para a rotina do brasileiro. Ebola (Bundibugyo) surto ativo; sem vacina Quais os vírus mais perigosos hoje e como eles podem afetar sua rotina? Arte/g1 O surto atual de ebola tem uma particularidade que o diferencia dos anteriores: a cepa em circulação é o Bundibugyo —um dos cinco vírus da família ebola que afeta seres humanos e o mais raro deles. Diferentemente do que ocorreu entre 2014 e 2016, quando mais de 24 mil casos foram registrados na África Ocidental, não existe, desta vez, nem vacina aprovada nem anticorpos monoclonais eficazes contra essa variante. As duas terapias desenvolvidas após aquela epidemia —o imunizante Ervebo e os anticorpos monoclonais— são específicas para a cepa Zaire, que estava em circulação naquela época. Antônio Carlos Bandeira, infectologista e assessor técnico da Vigilância Epidemiológica do Estado da Bahia, explica que o cenário mais preocupante para o Brasil seria o de um trabalhador ou turista que viaja para as regiões afetadas, se contamina, embarca sem sintomas e desembarca em solo brasileiro ainda dentro do período de incubação —que vai de dois a 21 dias. O problema é que, segundo ele, os hospitais brasileiros não estão equipados para receber um caso confirmado de ebola. O manejo do vírus exige uma estrutura muito mais complexa do que o isolamento hospitalar convencional. São necessários três módulos integrados: uma sala de preparação, uma antessala de acesso ao leito e o quarto do paciente, com pressão negativa. Os profissionais de saúde entram com equipamento semelhante ao de astronauta — capacete, roupa hermétic a—, e a saída ocorre por um fluxo separado, com banho de corpo inteiro e descarte de toda a indumentária dentro da unidade. Sem essa estrutura, o risco de contaminação de trabalhadores da saúde é alto. Foi exatamente o que aconteceu em 2014, quando profissionais de saúde na Espanha e em outros países europeus foram infectados mesmo usando equipamentos de proteção individual convencionais. Profissionais de saúde conduzem menina com suspeita de Ebola, em 12 de agosto de 2018, em Beni, nordeste da República Democrática do Congo. JOHN WESSELS / AFP Bandeira relembra que, caso um caso chegasse a uma cidade sem essa estrutura — o que se aplica à grande maioria dos municípios brasileiros —, o vírus poderia contaminar rapidamente os contactantes domiciliares do paciente e depois os profissionais de saúde dos serviços procurados, gerando um surto inicial difícil de conter até que o diagnóstico fosse confirmado. Luana Araújo, infectologista e mestre em Saúde Pública pela Universidade Johns Hopkins (EUA), pondera que o risco global do Bundibugyo é atenuado por características próprias do vírus. A alta letalidade tende a extinguir rapidamente os reservatórios. A transmissão exige contato direto com sangue ou secreções de pacientes doentes —não é respiratória. E o sistema de vigilância brasileiro tem protocolos específicos para febres hemorrágicas virais há bastante tempo, com orientação recente do Ministério da Saúde direcionada a agentes de portos, aeroportos e fronteiras. André Bon, coordenador da Infectologia do Hospital Brasília e responsável pela área de Infectologia da Rede Américas, acrescenta que no maior surto já registrado de ebola — com mais de 22 mil casos —, o Brasil não registrou nenhum caso confirmado. A própria OMS direciona as principais medidas de precaução para as regiões internas da República Democrática do Congo e dos países de fronteira, não para viagens internacionais em geral. O que muda na sua rotina? Se você não viaja para a República Democrática do Congo ou Uganda, nada muda. Se viaja, evite contato com pessoas doentes na região, registre a viagem no consulado e, ao voltar, informe ao médico o histórico de deslocamento se desenvolver febre nos 21 dias seguintes. Hantavírus: letal, mas de disseminação restrita no Brasil Quais os vírus mais perigosos hoje e como eles podem afetar sua rotina? Arte/g1 O hantavírus mata, em proporção, muito mais do que a gripe. A taxa de letalidade no Brasil fica entre 30% e 50% —números que raramente aparecem com destaque no noticiário, e por uma razão epidemiológica muito específica: o vírus raramente é transmitido entre pessoas, e seu contágio depende de um contato muito particular com o ambiente. Bon detalha que existem dezenas de tipos de hantavírus espalhados pelo mundo. O único com capacidade de transmissão entre humanos é o vírus Andes, restrito à Argentina e ao Chile —e foi essa cepa a responsável pelo surto registrado recentemente em um navio cruzeiro. Os tipos que circulam no Brasil são transmitidos exclusivamente pela inalação de aerossóis formados a partir de excretas de roedores silvestres. Uma pessoa infectada no país não é capaz de passar o vírus para outra. Luana Araújo reforça esse ponto ao contextualizar o peso relativo do hantavírus: apesar da alta letalidade, sua dispersão territorial é muito menor do que a da gripe, seu número de reprodução básica — o indicador que mede a capacidade de propagação de um vírus — não é elevado, e o contágio depende inteiramente da exposição a ambientes rurais ou fechados contaminados com fezes e urina de roedores silvestres. Últimos passageiros do navio que registrou casos de hantavírus desembarcam na Espanha Jornal Nacional/ Reprodução O risco é real para quem trabalha ou frequenta essas áreas, mas não representa uma ameaça à população urbana em geral. Bandeira acrescenta que, mesmo no caso do surto no navio — envolvendo o subtipo Andes, o único transmissível entre pessoas —, a transmissibilidade em ambientes abertos é baixa e depende de contato prolongado e próximo com o paciente. Com os casos identificados e isolados, a probabilidade de disseminação ampla cai significativamente. O que muda na sua rotina? O risco existe em ambientes rurais ou fechados com presença de roedores —galpões, depósitos, casas de campo que ficaram fechadas. Se você vai limpar esse tipo de espaço, use máscara PFF2 e luvas, nunca varra a seco, e umedeça o chão antes de qualquer limpeza para não aerosolizar as partículas. Influenza A (H3N2): a maior ameaça real no Brasil Quais os vírus mais perigosos hoje e como eles podem afetar sua rotina? Arte/g1 Para os três especialistas ouvidos pelo g1, não há dúvida: de todos os vírus em circulação, a influenza A é o que representa o maior risco prático para a vida do brasileiro. Não porque seja o mais letal em proporção — não é —, mas porque se dissemina por gotículas respiratórias, atinge uma população numericamente enorme e pressiona um sistema de saúde que já opera no limite. Luana Araújo é direta: “A influenza é o vírus vizinho, o que está ali ao lado, o que chega à maioria das pessoas dentro do mesmo território e causa desfechos graves sem parecer, à primeira vista, uma ameaça dramática”, diz. Segundo ela, a doença é culturalmente subestimada, e isso faz parte do problema. Uma pessoa vacinada ou não vacinada, assintomática ou com sintomas iniciais leves, já transmite o vírus a outras em ambientes compartilhados. A temporada de 2026 trouxe uma complicação adicional. O vírus H3N2 deu uma curva inesperada em relação ao caminho evolutivo que vinha sendo monitorado: ao invés de seguir o padrão projetado, circulou com uma cepa com menor resposta à proteção vacinal. A vacina contra influenza é desenvolvida com meses de antecedência — tempo necessário para produção, embalagem e distribuição —, e a previsão sobre quais cepas vão circular nem sempre se confirma. Em 2026, a combinação de cobertura vacinal abaixo do desejado com uma vacina de efetividade reduzida para a cepa predominante explica, em grande parte, o aumento expressivo de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) registrados no país. Bon acrescenta que o subtipo H3N2, embora seja o que circula hoje, não é a maior preocupação de longo prazo dos especialistas. O vírus que mantém os pesquisadores em alerta é o H5N1 — um subtipo que já circula entre mamíferos, foi responsável pela mortandade de leões-marinhos no sul do Brasil e de aves em várias regiões, e causou casos esporádicos em humanos nos Estados Unidos e no Canadá. Região dos Lagos inicia campanha de vacinação contra a gripe Prefeitura de Cabo Frio Até agora, o H5N1 não desenvolveu capacidade de transmissão sustentada entre pessoas —mas está em mutação constante, e uma mudança nesse sentido representaria um risco pandêmico real. A transmissão por gotículas, caso se consolide entre humanos, tornaria o vírus muito mais perigoso do que o ebola, que depende de contato direto com secreções. Bandeira propõe dois caminhos para melhorar o cenário da influenza no Brasil. O primeiro é a universalização da vacina pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), retirando a segmentação por faixa etária e grupos de risco que confunde a população e reduz a busca pelo imunizante. O segundo é o treinamento de profissionais de saúde para a prescrição precoce de antivirais: o oseltamivir, disponível tanto na rede pública quanto na privada, é mais eficaz quando usado nos primeiros dois dias de sintomas, mas, ele afirma, muitos médicos perderam o hábito de prescrevê-lo desde a pandemia de H1N1 de 2009, quando o Ministério da Saúde centralizou o estoque e retirou o medicamento da rede privada. Luana relembra ainda uma vulnerabilidade estrutural do Brasil: a rede hospitalar pediátrica é pequena diante da demanda. A influenza atinge crianças com frequência —e quando os casos graves crescem nessa faixa etária, os leitos de terapia intensiva disponíveis são insuficientes para absorver a procura. O que muda na sua rotina? Vacine-se. A vacina está disponível nas unidades de saúde. Se desenvolver sintomas de gripe, procure atendimento nos dois primeiros dias: existe antiviral disponível e ele faz diferença nessa janela. Não trate gripe como resfriado, especialmente se você tem filhos pequenos, é idoso, gestante ou tem alguma doença crônica. Poliomielite: controlada, mas cobertura vacinal em queda Quais os vírus mais perigosos hoje e como eles podem afetar sua rotina? Arte/g1 A poliomielite segue classificada como Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional pela OMS desde 2014, mas o que isso significa mudou consideravelmente. Os casos de poliovírus selvagem estão praticamente erradicados: restam focos apenas no Afeganistão e no Paquistão. A maior parte dos registros atuais no mundo vem do poliovírus derivado da vacina oral, o que levou o Brasil a migrar completamente para a vacina inativada injetável —mais segura nesse aspecto e já incorporada ao calendário nacional. Bandeira avalia que o risco de reintrodução da doença no Brasil é muito baixo, em razão da cobertura vacinal ainda abrangente. Mas sinaliza uma preocupação crescente: o movimento antivacina tem reduzido a adesão ao calendário infantil, enfraquecendo a proteção coletiva. Mecanismos como a vinculação de benefícios sociais do programa Bolsa Família à apresentação da caderneta de vacinação atualizada já existem e precisam ser mantidos com rigor, segundo ele. Campanha contra poliomielite em São José dos Campos Adenir Britto/PMSJC Luana Araújo ressalta que a cobertura vacinal contra pólio no Brasil, embora ainda elevada em termos absolutos, é heterogênea e menor do que o ideal, com regiões que têm bolsões de baixa imunização. Isso poderia facilitar a reintrodução do vírus caso ele fosse importado. O que muda na sua rotina? Verifique a caderneta de vacinação dos seus filhos. A vacina é gratuita nos postos de saúde e a cobertura no país está caindo. Se a carteira estiver desatualizada, agende a dose. Mpox: alerta para nova linhagem Quais os vírus mais perigosos hoje e como eles podem afetar sua rotina? Arte/g1 O mpox —nome oficial da varíola dos macacos— é uma doença com transmissão ativa no Brasil, baixa letalidade e perfil de risco concentrado. Bandeira explica que o vírus causa lesões cutâneas semelhantes às da varíola clássica, sem a mesma gravidade: vesículas que podem surgir nos membros, no rosto e no abdômen, com curso autolimitado na maioria dos casos. Essa característica cutânea tem uma vantagem epidemiológica —facilita o diagnóstico precoce e o isolamento dos casos, o que ajuda a frear a cadeia de transmissão. Bon destaca que o padrão de transmissão da doença mudou nos últimos anos. O mpox, que historicamente se associava ao contato físico direto com animais ou pessoas infectadas, passou a se disseminar de forma mais expressiva por contato durante relações sexuais. Bandeira reforça a distinção: o vírus não é sexualmente transmissível no sentido estrito —ele se transmite pelo contato corporal próximo, que nesse contexto é mais frequente e prolongado. O que os primeiros surtos revelaram é que esse tipo de contato foi o principal vetor de disseminação entre os casos inicialmente registrados no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Profissional de saúde prepara dose de uma vacina contra a mpox. AP Photo/Mary Altaffe O que preocupa os especialistas é a chegada de casos da linhagem Clade Ib ao país. Essa variante é mais transmissível e associada a quadros mais graves, especialmente em crianças e pessoas imunossuprimidas. Até agora, os registros no Brasil são de casos importados, mas a vigilância permanece ativa. Bon ressalta que o aumento de casos observado no início de 2026 exige acompanhamento e que a orientação sobre situações de risco —em especial as de contato íntimo— é fundamental para conter a circulação do vírus. O que muda na sua rotina? Saiba se você está no grupo de risco —o vírus circula e o contato físico próximo é a principal via de transmissão. Se surgirem lesões na pele parecidas com bolhas ou feridas, procure atendimento e evite contato próximo com outras pessoas até ser avaliado.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/05/24/ebola-hantavirus-influenza-a-e-mais-quais-os-virus-mais-perigosos-hoje-e-como-eles-podem-afetar-sua-rotina.ghtml


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