Dois desconhecidos, um doador: após anos na hemodiálise, pacientes recebem rins da mesma criança e dividem quarto em Rio Preto
18/05/2026
(Foto: Reprodução) Paciente de Ilha Solteira recebe transplante de rim de criança em Rio Preto
Separados por quase 500 quilômetros, dois homens que nunca haviam se visto tiveram os destinos cruzados por uma mesma perda, e pela possibilidade de recomeço em São José do Rio Preto (SP).
Internados no mesmo quarto, no Hospital de Base (HB), Anderson do Vale, 42 anos, de Ilha Solteira, e Milton dos Santos, 57, de Presidente Prudente, descobriram que haviam recebido os rins do mesmo doador: um menino de 11 anos que morreu após cair de bicicleta e bater a cabeça, em Mirandópolis (SP).
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A coincidência veio à tona durante a recuperação dos pacientes no hospital rio-pretense, onde os transplantes foram realizados, nesta sexta-feira (15). A descoberta emocionou familiares e transformou o luto de uma família em esperança para outras duas.
Anderson do Vale e Milton dos Santos moram há mais de 200km de distância, mas foram unidos no mesmo quarto pela doação dos mesmos rins.
Arquivo Pessoal
A história começou a ganhar novos contornos quando a esposa de Anderson do Vale, um dos transplantados, de Ilha Solteira, assistiu à uma reportagem da TV TEM sobre a morte do garoto e a captação de órgãos, depois da autorização da família.
Ao ouvir os detalhes do caso, ela imediatamente associou as informações à ligação recebida horas antes pela família.
“O médico ligou para nós, na noite de quinta-feira, e disse que tinha um rim de uma criança de 11 anos que caiu da bicicleta. Na hora que vi a reportagem, eu associei os fatos”, contou Elaine Cristina Mariano Braves, ao g1.
O marido Anderson fazia hemodiálise havia nove anos e meio. A rotina era marcada por sessões de quatro horas, três vezes por semana, iniciadas ainda quando o casal morava em Maringá (PR).
Depois da mudança para Ilha Solteira, em 2020, ele continuou o tratamento no interior paulista e passou a realizar consultas em Rio Preto.
Anderson do Vale, logo após a cirurgia de transplante.
Arquivo Pessoal
Fila do transplante
No fim de 2025, entrou para a fila de transplantes. Agora, após a cirurgia, resume a mudança de perspectiva em gestos simples, mas simbólicos para quem convivia com as restrições impostas pela doença renal.
“É muita felicidade não precisar mais ficar quatro horas numa máquina, três vezes por semana. É muito bom saber que agora posso beber água à vontade”, disse Anderson, ao g1.
Ele gravou uma mensagem por vídeo, falando sobre o processo de recuperação e a ansiedade em receber alta logo (assista acima).
Milton dos Santos, outro transplantado do mesmo doador, logo após a cirurgia
Arquivo Pessoal
Mesmas expectativas
No mesmo hospital, Milton Lima vivia uma expectativa semelhante. Morador de Presidente Prudente, ele fazia hemodiálise desde dezembro de 2025 e entrou na fila de transplantes no início deste ano.
Segundo ele, a ligação recebida do médico também trazia a mesma explicação sobre a origem do órgão.
“Na noite de quarta-feira, o médico me ligou e me ofereceu o rim de uma criança, que teria morrido ao cair de bicicleta. Triste pela morte de uma criança, mas feliz porque esse rim pode salvar a minha vida”, relatou.
Os dois transplantados devem permanecer internados entre sete e dez dias para acompanhamento da adaptação dos novos rins e realização de exames.
O Hospital de Base informou ao g1 que, por questões de sigilo entre doadores e receptores, não divulga oficialmente informações que permitam identificar doadores ou os destinos dos órgãos transplantados.
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Menino de 11 anos morre após cair de bicicleta e bater a cabeça no chão em Mirandópolis (SP)
Arquivo pessoal
A despedida que salvou vidas
Lucas de Souza Martins tinha 11 anos e morreu na quarta-feira (13), em um hospital particular de Araçatuba (SP), seis dias após sofrer uma queda de bicicleta em Mirandópolis.
Segundo apurado pela TV TEM, o garoto caiu enquanto andava de bicicleta no dia 7 de maio e bateu a cabeça no chão, chegando a desmaiar. Ele foi socorrido pelo pai e levado ao Hospital Estadual, onde exames apontaram uma fratura no crânio.
Devido à gravidade do quadro, a criança foi transferida para o hospital de Araçatuba, passou por cirurgia e permaneceu internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), mas não resistiu aos ferimentos.
Após a confirmação da morte, os pais autorizaram a doação dos órgãos. Segundo o hospital, foram doados o fígado, os rins e as córneas.
Uma equipe de captação chegou a Araçatuba em uma aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) e contou com escolta da Polícia Militar para o transporte dos órgãos.
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