Do 'Caracaço' à captura de Maduro: os 30 anos que mudaram a Venezuela para sempre
11/01/2026
(Foto: Reprodução) Sem Hugo Chávez, o chavismo ainda se sustenta?
A história recente da Venezuela é marcada pela ascensão de Hugo Chávez e pelo êxodo de mais de 7 milhões de pessoas que deixaram o país fugindo de crises e perseguições. Como mostra a reportagem do Fantástico, da TV Globo, o regime iniciado pelo ex-presidente transformou profundamente a estrutura social e política da nação antes mesmo da chegada de seu sucessor, Nicolás Maduro.
Para entender esse cenário, é preciso recuar ao final do século 20. Apesar da riqueza vinda do petróleo, a Venezuela enfrentava graves problemas econômicos e violência, que culminaram no "Caracaço" ('Caracazo', em espanhol), em 1989: uma revolta popular que terminou com centenas de mortos depois de as forças de segurança atirarem contra manifestantes para evitar saques e depredações.
Três anos depois, o então tenente-coronel Hugo Chávez liderou uma tentativa fracassada de golpe de Estado, ganhando visibilidade nacional ao prometer justiça e ordem.
Chávez venceu as eleições presidenciais em 1998 com a promessa de distribuir a riqueza do petróleo aos mais pobres. Naquela época, a desigualdade era extrema. Alberto Barrera, biógrafo de Chávez, explica que o militar surgiu como uma figura que prometia prosperidade para a população desassistida.
"Ele venceu com grande popularidade, mas seu governo rapidamente começou a enfrentar problemas e a seguir um rumo militar", contou Barrera ao Fantástico do último domingo (11).
O apoio popular inicial permitiu que Chávez mudasse a Constituição para centralizar recursos e royalties do petróleo. No entanto, o aumento da intervenção estatal gerou forte reação do setor privado — além de greves e manifestações —, que culminou em um golpe em 2002. Chávez foi afastado do poder por 48 horas, mas retornou com apoio militar e radicalizou o governo, intensificando a repressão.
Desmonte da democracia
A partir daquela ano, o regime chavista começou a desmontar as estruturas democráticas. Mais de 300 concessões de rádio e televisão foram fechadas ou não renovadas por Chávez. O jornalista Hernan Lugo relata que o alto comando militar chegou a fazer ameaças públicas contra profissionais da imprensa em rede nacional após críticas ao governo e denúncias de autoritarismo.
Em 2007, Chávez foi derrotado num referendo para mudar a Constituição. Lugo escreveu um artigo instando-o a admitir o revés.
Foi tão forte a reação que no dia seguinte ele convocou o Alto Comando Militar", relembra o jornalista. "E o Alto Comando Militar me fez ameaças de maneira pública em rede nacional, atacando o jornal, a minha pessoa e o exercício do jornalismo."
Chávez venceu as eleições presidenciais em 1998 após tentativa frustrada de golpe.
Reprodução Fantástico
Especialistas descrevem esse período como um "regime híbrido", que misturava traços democráticos com autoritários. Marsílea Gombata, professora de Relações Internacionais, destaca que o chavismo foi o maior movimento de massas da história venezuelana. Contudo, com o passar dos anos e a consolidação do poder, as características autoritárias prevaleceram de forma definitiva.
Esse endurecimento forçou milhões de cidadãos a buscarem refúgio em outros países, incluindo o Brasil. Maria, que hoje trabalha como chefe de cozinha, relata que sua família sofreu quase nove anos de perseguição por grupos armados aliados ao governo, os chamados "coletivos". Ela conta que seu marido, um engenheiro encarregado de obras públicas, foi obrigado a pagar propinas sob a mira de armas.
"Era uma ansiedade muito grande, todo dia, tudo... a obra terminou, mas eles queriam continuar cobrando", conta Maria sobre os momentos antes do refúgio no Brasil.
Enquanto o preço do barril de petróleo atingia a marca de cem dólares, Chávez conseguia manter sua força por meio de investimentos em projetos sociais. Essa bonança financeira, aliada ao seu carisma e talento como comunicador, sustentou a popularidade do líder até o fim da vida. Naquela época, o fluxo de dinheiro permitia que o governo ignorasse críticas sobre a crescente corrupção.
A morte de Hugo Chávez em março de 2013, vítima de um câncer, gerou um vácuo de liderança e uma sensação de desamparo até mesmo entre opositores. Naquele momento, surgiu a dúvida se a chamada Revolução Bolivariana sobreviveria sem a sua figura central. Para refugiados como Maria, Chávez tentava mostrar uma face humana, agindo como um "ditador democrático".
Nicolás Maduro herdou o legado de Chávez, mas enfrentou o fim da bonança petrolífera e a falta do carisma do seu mentor. Recentemente, quase treze anos após a morte de Chávez, Maduro foi capturado em uma ação militar dos Estados Unidos. O destino do chavismo agora é incerto, enquanto a vice Delcy Rodríguez assume o poder temporariamente sob supervisão americana.
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