Anistia Internacional Brasil aponta indignação com absolvição de PMs que mataram Thiago Flausino: 'Derrota na luta por justiça'

  • 12/02/2026
(Foto: Reprodução)
PMs são absolvidos por morte de adolescente de 13 anos na Cidade de Deus A Anistia Internacional Brasil emitiu uma nota demonstrando indignação com a absolvição dos policiais militares Diego Pereira Leal e Aslan Wagner Ribeiro de Faria das acusações de homicídio contra o adolescente Thiago Menezes Flausino, de 13 anos, na noite desta quarta-feira (11). O adolescente foi morto durante uma operação na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio, em 2023. Eles também foram absolvidos da acusação de tentativa de homicídio contra Marcos Vinícius de Souza Queiroz, que dirigia a moto onde estava o adolescente. A sentença foi lida pelo juiz Renan de Freitas Ongaratto, do 2º Tribunal do Júri, após a decisão do conselho de sentença. "Além da dor da perda e da absolvição, chamou atenção durante o júri o deslocamento do foco do julgamento. Em vez de se concentrar nas circunstâncias da morte e na conduta dos acusados, houve tentativas reiteradas de questionar a vida e a memória de Thiago, associando sua imagem à criminalidade como forma de justificar sua execução. Essa inversão, que transforma a vítima em alvo de julgamento, desvia o debate do que está em análise e fere o direito à memória, à verdade e à justiça", afirma a Anistia. "Quando o foco do júri se desloca para a vida da vítima, e não para a conduta dos acusados, há uma inversão grave. O réu é quem está sendo julgado e não o menino que foi morto. Questionar a trajetória de Thiago não contribui para a justiça; ao contrário, perpetua a violência e atinge seu direito à memória e à dignidade", complementa. A Anistia destaca ainda a dor das mães que passam por essa situação, principalmente mulheres negras moradoras de territórios vulnerabilizados pela violência policial e mães de vítimas da violência do Estado. A instituição diz ainda que, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, entre 2015 e agosto de 2025, ao menos 56.396 pessoas foram mortas em ocorrências classificadas como homicídios por intervenção policial. Dessas vítimas, 82,7% eram negras e 71,7% eram jovens. "A história de Thiago é o retrato de uma realidade que atinge de forma desproporcional crianças e jovens negros no Brasil, em um contexto de política de segurança pública marcada por práticas violentas e racistas. Todas essas mortes poderiam ser evitadas com uma política de segurança pública que colocasse a vida no centro de sua atuação. É urgente interromper a lógica de militarização e a narrativa de 'guerra às drogas', além de garantir a responsabilização criminal, administrativa e cível de todos os agentes do Estado envolvidos em operações letais", complementa. "A absolvição dos policiais militares representa uma derrota na luta por justiça, memória e reparação. Manifestamos nossa indignação e solidariedade com a família de Thiago. Histórias como a dele não deveriam existir e nossa luta é para que casos como este não mais se repitam", encerra o posicionamento. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Os dois PMs, do Batalhão de Choque à época, também respondem por fraude processual. Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio, eles estavam em um carro particular durante uma operação conhecida como Tróia, na Cidade de Deus. Os policiais afirmaram que Thiago estaria armado e teria atirado contra eles. Ambos admitiram os disparos que mataram o adolescente e feriram Marcos Vinícius, que sobreviveu. Segundo a defesa, os agentes agiram em legítima defesa. Durante o julgamento, foram ouvidos Marcos Vinícius; a mãe de Thiago, Priscilla Menezes; vizinhos e amigos do adolescente; um dos policiais que estava no carro particular utilizado na ação; e o comandante da operação realizada naquele dia na comunidade, entre outras testemunhas. Surpresa com fotos encontradas no celular Durante o depoimento, Priscilla Menezes afirmou ter sido surpreendida ao saber que a perícia encontrou fotos de um menor armado no celular do filho. As imagens foram apresentadas no plenário. “Eu não sabia. Eu não consigo ver verdade nessas fotos, em várias delas eu não acho que é o Thiago”, afirmou. Thiago Menezes Flausino tinha 13 anos quando foi morto Reprodução/TV Globo Inicialmente, ela disse não reconhecer o filho em duas imagens exibidas — uma em que aparece apenas a mão de uma pessoa segurando uma arma e outra em que um jovem está com o rosto encoberto. Em seguida, ao ser apresentada uma terceira fotografia, na qual um jovem aparece segurando o que parece ser uma arma longa, declarou que era seu filho na imagem. “Ai parece o Thiago. Não sei o que é isso que ele está segurando. Não sei se é de matar rato”. A defesa também apresentou áudios de Thiago falando que trabalhava para um traficante conhecido da região e aceitando montar uma “boca de fumo”, em resposta a um amigo. Julgamento O júri popular começou na terça-feira (10), no Tribunal de Justiça do Rio. Antes do início da sessão, o pai do adolescente, Diego Flausino, afirmou que a expectativa da família era pela condenação dos réus. “Vamos esperar que a Justiça aconteça. Vai ser meio que um alívio. Eles têm que pagar de alguma forma”, afirmou. Ao todo, eram esperadas 11 testemunhas: cinco de acusação, cinco da defesa e Marcos Vinícius, sobrevivente da ação policial. Ele foi o primeiro a ser ouvido e afirmou que nunca viu Thiago armado e que o adolescente não portava arma no dia em que foi morto. Os policiais Diego Pereira Leal e Aslan Wagner Ribeiro de Faria Reprodução/TV Globo No plenário, o público ficou dividido entre familiares dos policiais e parentes de Thiago, além de ativistas contra a violência policial. O pai acompanhou a sessão vestindo uma camisa com a frase “Thiago vive em mim”. Disparos da polícia Segundo Marcos Vinícius, ele e Thiago circulavam pela comunidade na motocicleta do pai do adolescente quando perderam o equilíbrio e caíram. Enquanto tentavam levantar o veículo, foram surpreendidos por um carro descaracterizado, de onde os ocupantes saíram efetuando disparos. A investigação apontou que Thiago foi atingido por três tiros: um na parte traseira da perna, um nas costas e outro que perfurou as duas canelas. O defensor Pedro Cariello, que atua como assistente de acusação da família, lembrou que o tiro que atingiu o menor de 13 anos foi pelas costas. A informação veio a partir da necrópsia da investigação da Delegacia de Homicídios e também do Ministério Público. Segundo a defesa, no entanto, Thiago teria atirado contra os agentes. Outros depoimentos Depoimentos ao longo da sessão indicaram que a operação utilizou recursos particulares de policiais militares, incluindo o veículo usado na ação. O policial militar Diego Geraldo de Souza afirmou que o batalhão possuía uma viatura descaracterizada, mas que ela já era conhecida por criminosos da região, motivo pelo qual um carro particular foi utilizado. Segundo ele, a missão do veículo seria permanecer fora da comunidade, na região da Gardênia Azul, realizando monitoramento prévio da operação. Ele também disse que o drone usado na ação era particular e que “a corporação nunca teve drone de uso oficial”, acrescentando que o equipamento já havia sido empregado em outras operações. Michel da Silva, dono de uma borracharia próxima ao local onde Thiago foi morto, afirmou que policiais tentaram mexer em uma câmera de segurança instalada no estabelecimento. Segundo ele, as imagens mostravam o corpo do adolescente, mas, em determinado momento, o enquadramento deixou de registrar a posição onde Thiago estava caído. Os policiais Diego Pereira Leal e Aslan Wagner Ribeiro de Faria durante o julgamento Reprodução TJRJ

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/02/12/anistia-internacional-brasil-aponta-indignacao-com-absolvicao-de-pms-caso-thiago-flausino.ghtml


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